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Universalismo crístico ou Misticismo antiespirítico? março 30, 2011

Posted by arturf in Erasto, fascinação, Iluminismo, misticismo, universalismo.
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Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. (1 João 4)

O Espiritismo, consubstanciado na Doutrina Espírita, teve e tem como principal missão reestabelecer a Verdade e revelar ainda outras tantas, só capazes de serem hoje compreendidas em conformidade com o progresso intelecto-moral alcançado pela humanidade após séculos de lutas contra as trevas da ignorância.

A História nos conta que a Igreja Católica lutou por muito tempo para que seus dogmas de fé não fossem atingidos pelas descobertas e avanços da Ciência, o que poderia comprometer o domínio sobre os fiéis e desmantelar sua influência e privilegiada posição econômica e política.

Com o Renascimento, período marcado por transformações em muitas áreas da vida humana, que assinalam o final da Idade Média e o início da Idade Moderna, houve ruptura com as estruturas medievais, marcando grandes avanços nas artes, na filosofia e nas ciências.

O pensamento iluminista, a seu turno, durante o século XVIII, marcou o fim do obscurantismo, inaugurando uma nova era, iluminada pela razão e respeito à humanidade. As novas descobertas da ciência, a teoria da gravitação universal de Isaac Newton e o espírito de relativismo cultural fomentado pela exploração do mundo ainda não conhecido foram também importantes para a eclosão do Iluminismo.

Entre os precursores, destacaram-se os grandes racionalistas, como René Descartes e Spinoza, e os filósofos políticos Thomas Hobbes e John Locke. Na época, é igualmente marcante a fé no poder da razão humana. Chegou-se a declarar que, mediante o uso judicioso da razão, seria possível um progresso sem limites. Porém, mais que um conjunto de idéias estabelecidas, o Iluminismo representava uma atitude, uma maneira de pensar. De acordo com Immanuel Kant, o lema deveria ser “atrever-se a conhecer”. Surge o desejo de reexaminar e pôr em questão as ideias e os valores recebidos, com enfoques bem diferentes, daí as incoerências e contradições entre os textos de seus pensadores. A doutrina da Igreja foi duramente atacada, embora a maioria dos pensadores não renunciassem totalmente à ela.

A França teve destacado desenvolvimento em tais ideias e, entre seus pensadores mais importantes, figuram Voltaire, Montesquieu, Diderot e Rousseau. Kant, na Alemanha, David Hume, na Escócia, Cesare Beccaria, na Itália, Benjamin Franklin e Thomas Jefferson, nas colônias britânicas, figuram entre os maiores expoentes.

Tempos depois, já com a Igreja Romana em pleno declínio na Europa e com a Inquisição dando seus últimos suspiros, surge Allan Kardec, descortinando o mundo espiritual, sem fantasias, sem mistérios, sem hermetismo, desvelando ao mundo a realidade de além-túmulo, e apresentando uma Doutrina eminentemente racional e lógica, filtrando todo e qualquer arroubo místico advindo da fé cega, seja de origem dogmática ou advinda de puras concepções humanas de cunho fantasista.

Não obstante os esforços da Espiritualidade Superior para que fossem atingidos tais elevados objetivos, muitos indivíduos, talvez confundindo a nova situação de liberdade do pensamento, partiram para a revivescência de mitos e crendices, em sua maioria advindos das priscas eras do paganismo, na tentativa de conduzir à ausência de dogmatismos ou estruturas religiosas padronizadas.

Alguns partidários dessas teorias, a qual podemos chamar de “neopagãos”, nos tempos modernos, acreditam ter encontrado, surpreendentemente, no Espiritismo, a confirmação de suas crenças. Utilizando-se de alguns postulados espíritas, como a comunicabilidade dos espíritos e a reencarnação, passam tais indivíduos a transmitirem informações e a escreverem obras que acabam por cair no gosto de alguns “espíritas”, obviamente ainda pouco versados na Doutrina, ou seja, que pouco ou nada estudaram (e entenderam) da Codificação.

O espírito Ramatis pode ser apontado como espírito mais citado pelos propagadores do neopaganismo no meio espírita. Defensor daquilo que chama de “universalismo crístico”, o espírito Ramatis tem se utilizado de médiuns ideologicamente adeptos de concepções neopagãs que, bem intencionados ou não, se servem do Espiritismo e do movimento espírita para divulgarem suas ideias. Entre eles, podemos citar o médium Roger Bottini, que escreve obras romanceadas que versam sobre temáticas no mínimo exóticas, tais como: era de Peixes, civilização atlante, fim dos tempos, etc. Ao mesmo tempo, o médium diz receber revelações sobre personagens famosas da antiguidade, como faraós egípcios, legisladores hebreus do porte de Moisés, assim como outros em que não encontramos registros, já que teriam vivido na Atlântida, Lemúria ou alguma civilização lendária qualquer. Tudo isso entremeado por relatos de existência de dragões, magos negros, energias desconhecidas, seres interplanetários, e tudo que possa atiçar a imaginação do leitor. Como de costume, a fim de angariar confiança, o citado autor chega a declarar que foi filho de Allan Kardec em uma encarnação passada, como se tal informação, pura e simples, sem qualquer indício e confirmação, pudesse lhe conferir alguma autoridade extra. Confira o que afirma o citado “médium” em seu sítio na internet:

“Além de ter vivido na personalidade de Akhenaton, Allan Kardec foi, também, Atônis, o sacerdote do sol na Atlântida, e Andrey era seu filho. Logo, por mais incrível que isso possa parecer, Allan Kardec foi meu pai na extinta Atlântida e um inesquecível amigo no antigo Egito, durante seu reinado como o faraó filho do Sol.”

E para dar peso à sua ousada afirmação, trata de creditar tais informações ao auxílio de um espírito, já que, para muitos desavisados, basta ser espírito para possuir toda a sabedoria e conhecimento universais:

“Logo, sei o que estou dizendo. Essas informações são obtidas através de um processo de regressão de memória conduzido por Hermes, que é o mentor espiritual de todos os nossos livros.”

Em outro trecho do mesmo sítio, o sr. Bottini ainda “revela”:

” (…)Como eu era o próprio Natanael, e vivi próximo a Moisés desde os tempos da Atlântida, quando ele viveu como Atlas, posso ter “defendido” de forma exagerada as suas atitudes nos eventos da libertação do povo judeu da escravidão no Egito.”

O mais estarrecedor e surpreendente de tudo isso é que tais teorias são apresentadas como oriundas da evolução do pensamento espírita, embora colidam frontalmente com os métodos e objetivos da Doutrina e não tenham recebebido, nem de perto, a confirmação proveniente do controle universal.

Frente a tudo isso, a advertência de Erasto, constante em “O Livro dos Médiuns”, cresce em importância, já que, em matéria de Espiritismo, o benfeitor espiritual afirma que “é preferível rejeitar dez verdades a aceitar uma única mentira”. Tal assertiva denota prudência e critério para a avaliação de qualquer conteúdo, mais notadamente os de origem mediúnica.

Como já tratamos em outras oportunidades, a fascinação de origem mediúnica é um problema recorrente, e decorre das próprias dificuldades do médium, tornando-o presa fácil de pseudossábios e mistificadores da erraticidade. Listemos algumas delas:

1) vaidade (desejo imoderado de atrair admiração dos homens);
2) orgulho (conceito elevado ou exagerado de si próprio);
3) narcisismo (amor excessivo a si mesmo);
4) egoísmo (exclusivismo que faz o indivíduo referir tudo a si próprio);
5) presunção (ato ou efeito de presumir; de vangloriar-se; de formar de si grande opinião);
6) arrogância (tomar como seu; atribuir a si);
7) ambição (desejo veemente de fortuna, de glória, de honrarias, de poder; cobiça.)

No que tange especificamente ao item 7, pudemos recentemente verificar que há médiuns (ou pseudomédiuns) inclusive organizando excursões pagas ao Egito e outros locais tidos como “especiais” e “místicos” com o fito de alcançarem vantagens pecuniárias, o que é certamente algo lamentável, sob todos os pontos-de-vista. O Espiritismo nada tem a ver com eles, que se valem da condição de médiuns para adquirirem fama, dinheiro e poder.

O papel do verdadeiro espírita é o de esclarecer, orientar e, inclusive, desmascarar toda e qualquer iniciativa que vise a iludir, a enganar ou mistificar, uma vez que tais atitudes são reprováveis e atrasam a marcha evolutiva, tanto de suas vítimas como de seus executores, assim como colaboram para o descrédito e ridicularização da própria Doutrina Espírita, utilizada por indivíduos inescrupulosos como pano de fundo para encobrir uma série de interesses espúrios.

Não só leiamos, mas acima de tudo estudemos a Doutrina Espírita, para que nosso discernimento se amplie e possamos nos imunizar dessas e outras tantas influências perniciosas que lutam, nas sombras, para a derrocada desse clarão de conhecimento e sabedoria que ressuma do Espiritismo.

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